Entrevista: Vanessa Conz

Entrevista realizada por José Douglas Alves dos Santos

Cronista, poeta, mãe da Cecília e do Caio e uma engenheira que usa a matemática para rimar e a poesia para entender o mundo. Uma mulher sensível e atenta aos pequenos detalhes da vida, Vanessa Conz, graduada e mestre em Engenharia Química pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e autora do livro A Ré dos Ponteiros, além de ter participado de algumas antologias coletâneas literárias, aceitou nosso convite para uma entrevista em que fala a respeito de diversas questões: como é atuar nessa área da Engenharia; sobre a presença das mulheres ao longo de sua formação acadêmica e no trabalho; quando tomou a decisão de seguir a carreira de engenheira; a dificuldade de escuta em nosso tempo; a experiência de se perder numa cidade; algumas das difíceis decisões que precisou tomar na vida; um momento de sua trajetória para reviver se tivesse tal possibilidade; e ainda traz sugestões de lugares para conhecer em Porto Alegre, descreve como está sua vida durante a pandemia e responde o que é a vida. Confira a seguir.

01. “Para mim, as humanas são exatas e vice versa, principalmente quando queremos cuidar das pessoas e do mundo. Acredito que a sensibilidade combina com a paciência de uma equação e um verso é capaz de movimentar uma vida”, essa é uma descrição presente em seu site. Como é para você atuar em um campo que costuma ser descrito e/ou associado à frieza dos números, de uma objetividade excessiva, muitas vezes considerado avesso às subjetividades humanas? (ainda que muitas vezes se trate de uma incapacidade nossa de enxergar os versos, rimas e subjetividades presentes nos números e suas equações)
Eu acredito que as diferentes profissões e habilidades são complementares e nunca gostei dos rótulos históricos de humanas e exatas. Embora os números me acompanhem durante parte do dia, preciso, como engenheira, negociar, ouvir, interagir e contribuir. Talvez soe estranho falar isso, mas os números são sinceros e jamais dissimulam, então sinto-me confortável e protegida das complexidades humanas por alguns momentos quando estou a sós com eles. Por outro lado, às vezes gosto de abandoná-los e mergulhar em outros assuntos. Sei que não podemos nos especializar em muitas áreas no tempo de uma vida, mas acredito no poder da complementação. Acredito também que, quando temos interesses variados, somos mais felizes e completos.

02. Em relação ao fato de ser formada em uma ciência que até pouco tempo estava entre as mais “dominadas” pelos homens (em 2017, por exemplo, o Censo da Educação Superior informou que houve mais mulheres matriculadas em seis cursos das Engenharias, inclusive a Química, que teve um percentual de 50,8%), e que ainda hoje, mesmo com esse avanço, é percebida por muitas pessoas como majoritariamente masculina, esse cenário foi/é muito presente  em sua trajetória, tanto na formação acadêmica como no trabalho?
Na minha formação existiam muitas mulheres, foi mais difícil quando entrei no ambiente industrial, onde presenciei algumas situações de machismo. Hoje, estas cenas são raras e demonstram que há uma evolução. Creio que como sociedade temos muito a avançar, pois o machismo estrutural ainda não é percebido por muitos. Precisamos também incentivar as meninas a se interessarem por ciência, pois ainda há muitas mensagens, inclusive advindas da indústria de brinquedos e roupas, direcionando as meninas apenas para o que é estético e doméstico, enquanto que as mensagens masculinas são direcionadas para a aventura e o desconhecido.

03. Pegando esse gancho da formação, em que ponto de sua vida veio a decisão de seguir o caminho da Engenharia Química? Na época você já escrevia esses textos tão concentrados de poesia, ou essa fase de sua vida só começou depois? Chegou a ter ou sentir alguma dificuldade para se enquadrar na “lógica do sistema”, por assim dizer?
Eu escrevia e lia poesia na minha infância, claro que de uma forma muito ingênua. Gostava muito de Cecilia Meirelles e Mario Quintana. Na adolescência fiz alguns poemas que me ajudaram a atravessar o turbilhão emocional daquela fase. Escolhi Engenharia Química porque tinha muita afinidade por química e física e achava empolgante o poder de transformação e realização desta profissão (ainda acho, vide a participação e o papel dos engenheiros químicos no obrigatório caminho da sustentabilidade nos setores de energia, resíduos, combustíveis e plásticos, como exemplos). Nunca deixei a poesia de lado como leitora, mas em momentos de estudo e trabalho intensos, precisei pausar o hábito de escrever. Sei que parecem conflitantes, mas eu realmente gosto da objetividade da engenharia ao mesmo tempo em que gosto da libertação do pensamento proporcionada pela poesia. Gosto também de aplicar a lógica matemática no exercício dos poemas. Desde criança, mas agora com consciência disso, acredito que a ciência e a arte são as duas maiores preciosidades da humanidade.

04. “Assim como respirar, sinto vontade de expressar o que penso a partir de textos, talvez seja um defeito de quem nem sempre quer usar a palavra falada (afinal, a escrita nos leva a reflexão e cuidado maiores)”, mais uma descrição da sua página oficial. Rubem Alves dizia que sempre via anunciados de cursos de oratória, mas nunca tinha visto um de escutatória. “Todo mundo quer aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir“. Ele afirma que até pensou em oferecer um curso desse tipo, mas achou que ninguém fosse se matricular. Você seria uma das matriculadas nesse curso? O que acha da ideia e qual sua opinião sobre essa dificuldade que temos em ouvir?
Certamente eu me matricularia neste curso. Acredito que todos nós precisamos aprender a ouvir, tenho a impressão de que somos mais treinados a falar. Outras espécies, por não terem desenvolvido uma linguagem tão direta quanto a nossa, comunicam-se em silêncios invejáveis. Quando estou no meio da natureza, sinto menos vontade de falar. As redes sociais acentuaram a vociferação desrespeitosa, num ambiente propulsor de opiniões intencionalmente postas com o objetivo de fortalecer os egos. Precisamos resgatar as discussões sadias, ancoradas na vontade de aprender e quiçá, na mudança de ideias ou na ampliação de barreiras culturais.

Além deste agravante, o individualismo — que ficou mais evidente pelo comportamento de muitas pessoas durante a pandemia — reflete na forma como nos posicionamos. Para ouvir o outro, ter paciência e empatia, precisamos enxergar além de nossos muros, preconceitos e objetivos. Precisamos abraçar a humildade e esquecer nosso conservadorismo.

Sinto que este momento de pandemia trouxe algumas oportunidades para evoluirmos emocionalmente e socialmente, já que reclusos estamos introspectivos e sentindo dor. Nos últimos meses tenho procurado “ouvir” escritores através da leitura, além de influenciadores diversos através de podcasts e outras plataformas.

05. Alguma vez se perdeu em uma cidade desconhecida (ou mesmo em uma conhecida)? Lembra qual foi a sensação que sentiu ao passar por essa experiência?
Lembro de me perder uma vez em uma cidade fora do país e não conseguir relaxar por nenhum momento, pois a noite se aproximava e eu não encontrava táxis, pontos de ônibus ou metrôs. Fiquei realmente nervosa e não estava com um celular para me ajudar na orientação ou pedir ajuda. Não lembro de nenhuma experiência romântica onde me perder tenha sido agradável ou libertador, mas espero ter esta sensação algum dia!

06. Durante nossas vidas costumamos tomar decisões difíceis e complicadas, que de algum modo (ou de muitos modos) afetam nosso presente e futuro. Pensando em algumas dessas escolhas hoje, poderia comentar a que talvez tenha sido a mais difícil de ter tomado? E entre as que mais agradece por ter tido a coragem de fazer, qual seria?
As decisões mais difíceis sempre envolvem algum sofrimento, mas de alguma forma é ele que nos direciona para algum tipo de evolução. Agradeço muito por ter tido a coragem de me mudar para São Paulo logo que comecei minha vida profissional. Fo uma decisão realmente difícil, mas que me levou a um caminho de independência solitário e ao mesmo tempo libertador. Viver sozinha por um tempo foi importante para meu processo de autoconhecimento.

07. Se pudesse fazer uma viagem no tempo, reviver algum momento da história de sua vida, onde gostaria de ir?
Essa é fácil! Iria direto para casa da minha “Nonna” (avó), sentaria na sua mesa para tomar um café com pão colonial e o doce de leite feito por ela no fogão a lenha. Ficaria olhando o sorriso dela (ela sorria quando via os netos comendo). Depois eu sentaria no sofá e seguraria a mão dela.

08. Na entrevista que fizemos com Luciana Molisani e José Fujocka, perguntamos sobre espaços culturais que o casal sugeriria para quem vai conhecer a cidade São Paulo e que não se restringisse àqueles mais comuns veiculados pelas mídias; e pedimos também que comentassem sobre cafés, livrarias, bibliotecas e museus que gostavam de frequentar. Pegando carona nessa ponte aérea São Paulo-Porto Alegre, quais seriam as suas sugestões para quem ainda não conhece a capital gaúcha, bem como os lugares que mais gosta de ir na cidade?
Em Porto Alegre, adoro o restaurante Ateliê de Massas, que fica no centro histórico e possui obras do artista Gelson Radaelli espalhadas pela parede. Para sobremesa, o pastel de Belém do Amo.te Lisboa, que possui uma filial na frente do Parcão, um dos bonitos parques da cidade. Os meus cafés preferidos são os aconchegantes Srta. Margô e Agridoce. Para exposições, gosto do MARGS (Museu de Arte do Rio Grande do Sul) e do Santander Cultural. Para cinema, sugiro o Guion, que fica no bairro boêmio Cidade Baixa e oferece opções fora do circuito de grandes bilheterias. Para passear no centro, gosto muito da biblioteca pública estadual, do tour guiado do Palácio do governo Piratini e da Pinacoteca Rubem Berta.

09. Poderia comentar sobre como anda sua vida nesse período de pandemia do coronavírus e se tem trabalhado em novos projetos durante esse tempo? Além disso, para quem quer conhecer um pouco mais de seu trabalho, onde pode ser encontrado?
Tenho um filho de um ano e uma filha de seis anos, então como quaisquer pais e mães na pandemia, estou sobrecarregada de afazeres domésticos e cuidados com as crianças, incluindo acompanhamento de aulas. Neste momento as creches, escolas e a rede de apoio familiar fazem muita falta. Tento reservar um tempo no final de semana para praticar ioga e meditar. Leio todas as noites depois que as crianças dormem, mas sinto falta de assistir filmes, seriados, sair de casa e escrever! Escrevi algumas crônicas apenas em situações pontuais onde precisei muito expressar o que sentia. Afinal, o confinamento gera emoções diversas, desde saudades das pessoas que amamos até revolta pela inércia e ausência de escrúpulos dos governantes. Tenho muitas ideias para escrever no futuro, como por exemplo um livro de crônicas sobre a maternidade – foi demasiado intenso viver um puerpério na pandemia. Quem quer conhecer meu trabalho pode entrar em contato comigo (página Facebook) para conhecer meu livro de poesias ou frequentar meu site vanessaconz.com, onde eventualmente publico crônicas e poesias.

10. Como de praxe, finalizamos com a pergunta que Abujamra fazia aos seus convidados em Provocações: o que é a vida?
Para responder esta pergunta, vou fugir da condição humana para não criar uma concepção antropocêntrica. Prefiro olhar para a natureza e definir a vida através de algum ponto onde a poesia encontra a biologia. Assim sendo, a partir do quintal aqui de casa, a vida pode ser aquele momento em que a flor da jabuticabeira aflorou no tronco rude.

José Douglas Alves dos Santos

Um fatimense que caminha pelo mundo desmistificando dálias, observando nuvens e criando constelações de poesia

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