Mujica: “O ano em que celebramos o fracasso da Humanidade”

O ano de 2021, para muitas culturas, simbolicamente se encerrou há poucos dias, na passagem do dia 31 de dezembro para o 01 de janeiro de 2022. Sabemos que em tais momentos é comum que as pessoas façam balanços pensando e avaliando sobre o ano que passou (se perguntando, por exemplo, se foi mais positivo ou negativo; se houve avanços ao que se esperava ter/ser; se foram alcançados determinados objetivos; etc.). Neste vídeo que compartilhamos logo abaixo podemos conferir o balanço do ano de 2021 na perspectiva do ex-presidente uruguaio Pepe Mujica. Mesmo em poucas palavras, notamos uma de suas características mais notáveis, a lucidez ao comentar sobre o contexto sócio-político contemporâneo, enfatizando problemas e problemáticas que resultam de um processo cada vez mais global: quando a prioridade dos governantes se concentra demasiado (ou quase que exclusivamente) nos interesses do mercado financeiro do que nos interesses humanos e no desenvolvimento social. Como um dos problemas centrais mencionados por Mujica está o colapso ambiental e as problemáticas referentes a ele, perguntando como resolver a questão quando tantos dirigentes políticos não assumem o necessário compromisso (o que possibilitaria ações efetivas no âmbito social) e tampouco demonstram preocupação quanto ao tema.
Confira a seguir as sempre prazerosas e pertinentes palavras de Pepe Mujica:

Amigos da Deutsche Welle [empresa pública de radiodifusão da Alemanha], há uma peça musical do Rio da Prata, um tango, que diz: “Mais um ano, e o que importa?”. E, na verdade, parafraseando um pouco essa literatura popular, acreditamos que um ano importa, e muito, porque fechamos um ano e não conseguimos sair da pandemia e persistimos no mesmo erro. O mundo rico não quis entender que, se é uma pandemia, ela é global. E que, portanto, o mundo inteiro tinha que ser vacinado, e o mais rápido possível. E este é um ano fantástico, porque celebra um fracasso da Humanidade. Porque simplesmente não existiu vontade política de coletivizar o conhecimento e massificar a fabricação de vacinas em muitas partes do mundo. Com isso, demos ao vírus mais tempo que o suficiente, e massas — dizem que na África a população vacinada não chega a 10% — para que ele possa sofrer mutações e continuar complicando a vida do mundo inteiro. Este é o balanço mais penoso que há neste ano [de 2021], de mostrar que a direção política dos países ricos não estava à altura do que a Humanidade exige hoje. Praticamente não temos direção política, e estamos sujeitos às forças do mercado. O mercado opera muito mais acima das necessidades da vida. E é este o balanço deste ano, que coloca ao ser humano este dilema: como enfrentar o que deve ser feito frente às mudanças climáticas, com tanta fragilidade política para tomar decisões? Por isso, este é um ano que, convém sublinhar, demonstrou amplamente as maiores fragilidades do nosso tempo — pretensioso e presunçoso —, onde aproveita-se a inteligência, onde a acumulação de riquezas cresceu como nunca, onde a desigualdade se multiplicou, onde a ciência mostrou realizações fantásticas, onde muitas pessoas vivem melhor, vivem mais, e se alimentam melhor, e onde muitas pessoas anseiam chegar ao fim do mês em toda a Terra. Um ano contraditório que revela nossas fraquezas. Aprendemos algo? É a questão que permanece latente. Que cada um responda da melhor maneira que puder. E eu faço uma introspecção: tenho muito medo de que, apesar de tudo no passado, não tenhamos aprendido a necessidade de ter coragem para tomar algumas decisões para o mundo inteiro.

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